terça-feira, 27 de dezembro de 2016

O Nascimento de uma Nação -- Cinema com Rapadura

Dirigido, roteirizado e protagonizado por Nate Parker, O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO é um longa que não chega a impressionar, mas que possui relevância incontestável na sétima arte graças à temática abordada. Clique aqui e leia a crítica.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Rogue One - Uma História Star Wars -- Todos ficam satisfeitos

Seria ROGUE ONE - UMA HISTÓRIA STAR WARS um prequel do episódio IV ("Star Wars Episódio IV: Uma Nova Esperança", lançado em 1977)? Seria um fanservice, inclusive no intento de manter a cinessérie fresca na memória (lançando filmes anualmente)? Um caça-níqueis? Provavelmente, um pouco de cada.

Na trama, Jyn Erso (Felicity Jones) foi afastada de seu pai, Galen Erso (Mads Mikkelsen) ainda criança, pois Galen foi forçado pelo diretor Krennic (Ben Mendelsohn) a construir a arma mais poderosa do Império, a Estrela da Morte. Quando adulta, Jyn é resgatada pela Aliança Rebelde após ter sido prisioneira, com a condição de ajudar em uma missão que envolve seu pai e Saw Gerrera (Forest Whitaker), que o criou. Juntamente com o capitão Cassian Andor (Diego Luna) e o androide K-2SO, Jyn aceita a tarefa e inicia uma empreitada que acaba sendo maior que a prevista.

De início, o argumento é bastante próximo de "Uma Nova Esperança", porém, em um contexto menor, pois sem jedis e, principalmente, sem o grande nome da trilogia antiga, Luke Skywalker. Sem Luke e sem os jedis, mas com a opressão do Império e com a Estrela da Morte. Assim, "Rogue One" acaba tendo começo, meio e fim - afinal, não se assume como episódio, seria, pois, um recorte de fatos do gigantesco universo Star Wars (SW). Em razão da sua estrutura enclausurada, recebe benefícios tanto quanto desvantagens. De um lado, independe do pleno conhecimento da diegese de SW (embora seja aconselhável algum conhecimento, em especial no que se refere à trilogia antiga), consistindo, em termos cinematográficos, na obra mais hermética. No entanto, torna-se um alienígena naquele "planeta" (o planeta SW), fadado a um possível esquecimento no agrupamento da cinessérie - inclusive porque não alcança o nível memorável como os episódios IV e V (e mesmo o VII, pela exumação). Pior: sem surpresas. A tarefa proposta, vale dizer, o desafio das personagens, já é plenamente conhecido, o que reduz o impacto do plot. O destino do Império e da Estrela da Morte já é conhecido, caso contrário, não haveria episódio IV. Qual a expectativa de uma narrativa cujo desfecho já é público? Essa é uma armadilha criada pelo próprio roteiro contra si mesmo, e que não tem solução no script.

Não obstante, o plot é bastante fiel ao universo SW e suas idiossincrasias. Provavelmente fornece easter eggs que apenas os fãs mais devotos conseguem identificar - embora o espectador já iniciado pesque eventuais referências, como "templo kyber" e, claro, a "força" (no sentido que só tem lá). E vai além, com novas criaturas, como Bur Gullet (a cena é dispensável, mas incrementa a mitologia SW). Ainda no que tange à fidelidade, o filme conta com participações especiais nostálgicas, algumas delas que fazem toda a diferença emocional, mesmo que descartáveis dentro da narrativa. {SPOILER ALERT a partir daqui: quando Darth Vader aparece, os fãs deliram e o espectador não fã deve reconhecer que a sua presença imponente causa impacto retumbante. Com efeito, Darth Vader é um dos maiores vilões da sétima arte, quando ele aparece - inclusive com entrada triunfal -, a expectativa aumenta (em relação ao que ele fará) e ele não decepciona. Os momentos com "Lorde Vader" são sensacionais, talvez maiores que o filme inteiro: apesar de serem curtas as suas cenas, fazem valer o ingresso . Existem também outras participações nostálgicas, que não serão mencionadas, para preservar a surpresa. FIM DO SPOILER}. De maneira inteligente, a utilização de androides como alívio cômico é reiterada, desta vez, K-2SO tem o diferencial de ser um tanto insubordinado.

Nesse sentido, de forma ampla, o longa é falho na construção das personagens. Diferentemente do que ocorre com Luke, Leia e Han, o público não se vê impelido a torcer por Jyn, Cassian e K-2SO. Provavelmente seja isso que justifique a exumação das participações especiais nostálgicas mencionadas, pois as novas personagens não têm carisma por si sós. A culpa não é de Felicity Jones (Jyn), Diego Luna (Cassian), Mads Mikkelsen (coitado, Galen quase nem teve tempo de tela!) ou de ninguém do elenco. O elenco é razoável e faz um trabalho competente, porém, o espectador não se envolve com as personagens porque a proposta do enredo é uma tarefa que se sobrepõe às pessoas, isto é, mais importante, no texto, que questionar quem é Cassian, é questionar qual a sua função na Aliança Rebelde. Aliás, a motivação das personagens é superficial, mais uma vez diametralmente oposto ao que acontece na trilogia original. Quanto aos coadjuvantes, enquanto Donnie Yen vive um interessantíssimo Chirrut Imwe, Forest Whitaker faz um dos seus piores trabalhos da profícua carreira. Seu overacting é constrangedor e a caracterização não basta para o papel. Ben Mendelsohn atua como o vilão, o diretor Orson Krennic, que não está à altura de SW. Um ator que ainda precisa convencer e, principalmente, mostrar que seus vilões conseguem ter mais de uma expressão maléfica na face. No caso de Krennic, todavia, falta substância no script. Como se percebe, para um universo maniqueísta como é o de SW, falhar na construção do antagonismo é equívoco primário que quase prejudica a obra como um todo.


E por que não prejudica? Porque a direção de Gareth Edwards é excelente - mas não perfeita, conforme se verá. Seu grande acerto reside nos magníficos efeitos digitais, que são de uma qualidade digna da representatividade de SW nessa seara. Com efeito, o design de produção é novamente fenomenal, merecendo destaque a exibição inteligente da atmosfera dos diferentes planetas - árida onde há uma minoria oprimida pelo Império, mas com uma exuberante natureza onde seria a "residência" deste. Porém, algumas falhas também merecem menção. Edwards desconhece a linguagem 3D, por insistir na pouca profundidade de campo - mesmo o 3D ativo não é digno de elogios. Apesar do seu domínio do CGI, a reconstrução digital de personagens é artificial e desnecessária - exemplo claro é do falecido Peter Cushing (é fascinante que a tecnologia permita que um ator falecido participe de um filme, mas a artificialidade foi prejudicial). Ainda do ponto de vista estético, o design de som é razoavelmente fiel ao original, mas a trilha sonora de John Williams é insubstituível e faz muita falta.

Mesmo com todas as ressalvas, "Rogue One" tem o mérito de ser o primeiro filme SW com conteúdo voltado a um público adulto. Os dois elementos centrais da criação de George Lucas, star e wars, estão em peso no novo longa, tornando-o um pouco inadequado ao público infantil - em especial pelo segundo, pois tem um contexto bélico bastante intenso e perene na fita. Não que seja despido de leveza, existem momentos mais leves e levemente cômicos, mas a guerra se faz presente de maneira constante. O outro lado da moeda é que há sequências de batalhas muito longas: os efeitos digitais, reitera-se, são de primeiro nível, mas alguns momentos chegam a cansar, de tão alongados. É evidente que Edwars se empolgou com a liberdade que teve ao fazer um SW um pouco diferente, pois teve maior espaço, por exemplo, que J. J. Abrams no episódio VII. Porém, ele poderia ter sido mais sucinto. Outra evidência do teor maduro da obra é o retrato das guerras em países árabes - seria Jedha a síria de SW? Expor de forma nua cidadãos comuns combatendo soldados e, ainda mais impressionante, uma criança chorando em meio aos tiros, diverge muito do que até hoje se viu nos sete episódios - ainda mais considerando que a detentora dos direitos é a Disney.

Em síntese, ROGUE ONE - UMA HISTÓRIA STAR WARS se assenta em um paradigma mais realista e trágico que os filmes predecessores, sem abandonar suas premissas básicas. A narrativa deixa bastante a desejar, porém, na tarefa de ser um SW diferente o longa tem êxito, sendo um bom filme para quem não é fã desse universo e um ótimo filme para quem é fã. Melhor retificar o primeiro parágrafo: não se trata de um caça-níqueis, visto que honra a grandiosidade e o legado do que George Lucas idealizou. O lucro imenso é consequência, não o objetivo primário. É assim que todos ficam satisfeitos.

Michelle e Obama -- Cinema com Rapadura

Clique aqui e confira no Cinema com Rapadura a minha crítica de MICHELLE E OBAMA, um filme bem ao estilo da trilogia "Before", de Richard Linklater, mas consideravelmente inferior. Narra o primeiro encontro do casal Michelle Robinson (nome de solteira) e Barack Obama, recebendo 7 como nota.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Fallen -- Cinema com Rapadura

"Crepúsculo" não é aquele primor de franquia voltada ao público adolescente. Não obstante, recebeu um herdeiro que consegue ser inferior: FALLEN. Clique aqui para ler a crítica deste filme, um dos piores de 2016.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Jack Reacher: Sem Retorno -- Cinema com Rapadura

Não são raras as sequências inferiores em relação aos seus antecessores. JACK REACHER: SEM RETORNO não foge dessa regra. Clique aqui e confira a minha crítica.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Rainha de Katwe -- Ketchup

Sexta-feira, fim de expediente. Diante de tantas opções, nada como um delicioso hambúrguer. Pão de hambúrguer, carne bovina - quiçá duas ou mesmo três fatias -, queijo, molho, bacon, tomate. Para beber, refrigerante. Como acompanhamento, batatas fritas temperadas ao gosto do freguês no ketchup. Um tempero banal, mas que encanta crianças africanas em RAINHA DE KATWE, filme Disney sobre uma enxadrista ugandense, Phiona.

Phiona é uma jovem órfã de pai cuja vida em uma região pobre de Uganda lhe é difícil em vários aspectos: sem acesso à educação, é analfabeta; com moradia precária, dorme praticamente no chão; na escassez de recursos, precisa ajudar a mãe a aumentar a renda familiar para o sustento, o que também limita sua alimentação. Graças a Robert Katende, que faz trabalho voluntário, o mundo de Phiona adquire novas perspectivas dentro do xadrez. Graças ao seu talento, a jovem pode ter uma vida diferente da pobreza que parece inafastável. Sim, mais um filme de protagonista pobre e teoricamente sem futuro que encontra no esporte (no caso de "Rainha de Katwe", o xadrez) um caminho para melhorar a sua vida. Ou seja, um enredo extremamente clichê e conhecido. Não obstante, o colorido Disney alcança um brilho que poucos estúdios conseguem igualar.

Seja pelo roteiro bem elaborado, pela trilha sonora empolgante (as músicas de ritmo africano, além de coerentes com a diegese, alegram qualquer espectador) ou pelo retrato fidedigno da realidade, o filme executa bem a tarefa de entreter. Com isso se conclui que não se trata de uma película no estilo cult, conclusão acertada, o que não significa, por outro lado, frivolidade mainstream.

Mesmo sendo arquetípicas, as personagens encantam de alguma maneira, em especial pelo ótimo trabalho do competente elenco. Phiona é interpretada por uma joia recém descoberta, Madina Nalwanga, que transita com facilidade nas emoções da jovem. É fácil torcer por Phiona e Nalwanga é responsável por ajudar bastante na identificação cinematográfica secundária. Lupita Nyong'o é ganhadora do Oscar, o que a credencia na mesma medida que impõe responsabilidade (de atuar bem). Sua Harriet é uma mulher forte em uma Uganda "onde os fracos não têm vez". Suas filhas são o seu tesouro, o que justifica seu receio em relação ao xadrez e o enfrentamento dos homens que se envolvem com as suas filhas. Nada vale mais que a integridade e a felicidade da sua prole: Harriet é a encarnação do imensurável amor materno. Phiona aprendeu bem as lições da mãe sobre ter uma personalidade inabalável, o que não a permite se deixar magoar quando os colegas reclamam do seu cheiro. Taryn Kyaze não tem o mesmo espaço como filha mais velha, Night, o que é uma lástima, pois seu arco dramático pessoal é o mais denso e complexo. É com Night que o roteiro sugere prostituição e menciona a vulnerabilidade feminina. No primeiro caso, é uma questão de interpretação. No segundo, trata-se da visão machista e ultrapassada de que toda mulher carece de um homem que a proteja e seja o provedor. Com inteligência, o plot ironiza isso em vários momentos, como ao ter uma mulher como protagonista e criada por uma mãe viúva ainda jovem. O girl power é bem delineado e alinhado com a ideologia de empoderamento feminino como subtexto, ou seja, implícito. Harriet precisa cuidar sozinha das filhas, não é uma opção, é uma obrigação que ela abraça sem fugir nem lamentar. Uma coragem e uma independência que Phiona também tem. Na mesma esteira de pensamento, David Oyelowo também atua muito bem como Robert Katende, o coach que ensina Phiona no xadrez é que é um verdadeiro arauto de altruísmo. Seu arco dramático próprio é raso, quase lacunoso, o que não o impede de constituir um coadjuvante coerente.

Tratando-se de uma história real, o desenvolvimento das personalidades das personagens é eficaz e bem arquitetado. Reitera-se: as personagens encantam - e não é apenas em razão das atuações, embora elas sejam ótimas. Contudo, a narrativa é bastante convencional e previsível. Phiona, por exemplo, faz a caminhada padrão de ascensão, queda e retomada, com plot points que são igualmente previsíveis. Provavelmente é esse o grande "calcanhar de Aquiles" do longa.

Não se pode olvidar que Mira Nair é uma diretora de poucas habilidades cinematográficas. Com tomadas mal escolhidas e um plano holandês completamente deslocado, a linguagem do cinema é usada com ampla imperícia. No que Nair acerta, verifica-se apenas o básico: linguagem não-verbal para comunicação entre mãe e filha (na sequência da leitura à noite, que emociona pelo conteúdo, não pela forma), figurino dourado para representar a riqueza imaterial de Phiona e, pela enésima vez na sétima arte, uso da chuva como símbolo de tragédia e desgraça. No entanto, é visível a extrema pobreza dos moradores de Katwe, um local de periferia com muitas pessoas e poucas riquezas materiais, sem tecnologia e com moradores com conhecimento reduzidíssimo da vastidão do mundo em que se encontram. São pessoas para quem um mingau pode ser um manjar, para quem o chão pode ser mais atrativo para dormir que uma cama - afinal, é isso que conhecem. De todo modo, o abismo socioeconômico tem um retrato verossímil e comovente.

A menção do ketchup é apenas um dos vários exemplos pelos quais RAINHA DE KATWE é uma experiência que pouco inova, mas muito emociona. Não é uma fita que entra no rol dos melhores de 2016 do ponto de vista técnico - embora uma indicação de Lupita Nyong'o para o Oscar de atriz coadjuvante não esteja fora de cogitação. É um filme que funciona como o ketchup para a batata frita: não é o principal, mas agrega bastante e, no fundo, faz a diferença.

P.S.: NÃO é preciso conhecer as regras do xadrez para assistir ao filme. Isso talvez permita acompanhar com maior proximidade as batalhas, mas não é essencial.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Elle -- Perversamente estupendo

A França não poderia ter escolhido melhor representante para o Oscar. ELLE é um filme perversamente estupendo, uma experiência única que alia drama, suspense e comédia, nos três casos escapando das convenções de cada gênero. Uma verdadeira subversão cinematográfica.

Trata-se do mais novo filme do quase octogenário Paul Verhoaven (78 anos de muito talento), responsável por filmes pouco venerados, mas de qualidade ("A Espiã" e "Instinto Selvagem"), bem como por clássicos como "O Vingador do Futuro" e "RoboCop - O Policial do Futuro". ELLE é provavelmente o melhor da sua carreira: a direção é irretocável. Da mesma forma, o roteiro é sensacional.

Na trama, a protagonista Michèle (Isabelle Huppert) é uma das donas de uma empresa de videogames, administrando a empresa com a mesma rigidez que conduz todos os aspectos da sua vida. Tudo poderia mudar com a violência sofrida por um desconhecido: ela é vítima de estupro na sua própria casa. Porém, ao contrário do que se poderia esperar, ela não se altera, ao menos não até descobrir que o agressor continua observando-a.

A direção é irretocável porque tecnicamente requintada e inventivamente envolvente. O tema seria delicado para um qualquer, mas Verhoaven o encara sem tabus e com maturidade. É por isso que o prólogo é a cena do estupro - antes da familiarização com o enredo, uma cena impactante para acenar com as idiossincrasias que a fita apresentará. Os enquadramentos parciais (inclusive um de fora do recinto, com visão incompleta) não foram escolhidos para atenuar o desconforto do ocorrido, longe disso. Para deixar claro, o gato (de estimação da protagonista) que assiste ao fato se distancia, como se não quisesse acompanhar. Até porque a cena retorna mais de perto posteriormente (e mais uma vez, na imaginação de Michèle, em um humor mais do que negro). A ideia de um prólogo chocante com essa mise-en-scène é simplesmente um cartão de visitas, uma verdadeira apresentação para deixar perplexo o espectador. Que fica ainda mais perplexo em razão da aceitação da vítima, que não recorre às autoridades. Verhoaven varia o uso dos recursos ordinários - panorâmica ao entrar na casa, câmera subjetiva em um momento autenticamente voyeurista, contraplongée entre vítima e agressor e contraposição de luzes (penumbra, em especial) quando de uma proposta para um funcionário cometer atos ilícitos. Tudo sempre bem escolhido e bem provocativo. Há também o embalo de uma trilha sonora apta para criar suspense, o que não se confunde com filiação ao gênero, afinal, "Elle" varia estilisticamente. A ideologia é representada inclusive no último plano, que resume direção e roteiro com eficácia.

Nesse sentido, o roteiro é sensacional, vez que imprevisível, instigante e peculiar. Ou seja, único. Na parte de suspense, o óbvio é a descoberta da identidade do agressor, porém, o plot surpreende com pistas para outras subtramas. Raros textos conseguem elaborar tantas camadas como o de "Elle". Quando Michèle é atacada (por falta de uma palavra melhor) em um restaurante por uma desconhecida (com a fala "ordinária! Você e seu pai"), não se sabe a conexão com a trama principal, quando é o que justifica a reação da protagonista ao estupro. Ela foge do vitimismo que seria conclusão óbvia, tomando as rédeas de todas as ações da sua vida. Assim, na faceta dramática da narrativa, contrapõe-se a intensidade da tragédia à resiliência característica de Michèle. Seus problemas, ao menos na aparência, não a derrubam. Seus desafios são enfrentados de frente. Há um tempero agridoce a tudo isso, concernente a um delicioso humor negro (típico europeu e bastante francês) que é um sarcasmo deleitável da personagem principal (esta merece observações apartadas). Sem contar ter imprevisibilidade e sadomasoquismo como pilares narrativos, o que enriquece o roteiro. Não há nada previsível na sequência de acontecimentos - sim, são várias as surpresas - e paira uma sensação incômoda de constante imperfeição. Hitchcock estaria orgulhoso, já que defendia que era necessário fazer o espectador sofrer.

Sem adentrar nos pormenores das personagens, levemente arquetípicas, todos os papéis são de personalidades condenáveis em algum sentido - normalmente, moral. Ninguém é exemplo de conduta, ninguém pode "apontar o dedo" para o outro porque seria "o sujo falando do mal lavado". É uma visão bastante realista do mundo, pois admite a falibilidade humana e até mesmo potencializa este fator. Por exemplo, Michèle condena a mãe (Judith Magre) por contratar garotos de programa (em especial Ralf, corporificado por Raphaël Lenglet, que serve apenas para isso), olvidando que é amante de um homem casado (e sem o conhecimento da esposa). Ideologicamente, o plot faz concluir que todas as pessoas são ruins - mal intencionadas, ególatras, malvadas, agressivas, traidoras, dissimuladas e/ou frouxas. E também que o sexo é o símbolo da perversão humana, signo de tudo que o homem tem de ruim e de tudo de ruim que pode acontecer ao homem. Isabelle Huppert faz uma interpretação espetacular (o ingresso já vale se for apenas para acompanhar seu trabalho de atuação), materializando a espiral de problematizações morais e de caráter. Se fosse necessário, Huppert carregaria a fita em suas costas, tamanha a sua excelência no papel. Se o roteiro fosse ruim e se a direção fosse ruim, ela sustentaria tudo sozinha. Mas não: é tudo excelente.

Para o público mais conservador, que não aguenta ver uma cena de uma mulher se masturbando ao olhar o atraente vizinho de binóculos, o filme é um fosso de depravação, que apenas denigre o próprio ser humano enquanto tal. A visão, porém, é superficial. Sexo é só aparência em “Elle”. Violência, traição, dissimulação... são fatos do cotidiano, nada absurdo. O que faz o longa é expor cruelmente esses caracteres. E chegar a uma triste conclusão, referente à podridão que as pessoas fingem não existir – inclusive (e para começar) em si mesmas. Com esse norte, a película é perversa, mas também estupenda.