segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Ben-Hur (2016) -- Desnecessário, mas não completamente descartável

Na já falada esteira de revisitação de obras consolidadas (em especial, clássicas), em razão do ocaso de criatividade em Hollywood, aparece um novo BEN-HUR nas salas de exibição. A Paramount fez, acertadamente, um marketing bastante modesto, reflexo do receio do fracasso da obra. Diferente de, por exemplo, "Esquadrão Suicida", que entrou no mercado com confiança exacerbada. Também acertou ao apresentar o filme não como um remake daquele de 1959, mas como uma nova obra baseada no livro clássico. Mais uma vez, sabedoria na decisão: primeiro porque a chance de superar a versão cinematográfica de 59 é ínfima, basta recordar que ela foi premiada com 11 estatuetas do Oscar; e segundo porque o viés adotado é outro. Afastar a associação com o longa estrelado por Charlton Heston se mostrou medida necessária porque a chance de vitória na comparação era reduzida, e a liberdade criativa no roteiro tomou rumo distinto.

Além de consistir em produção grandiosa e impecável em todos os detalhes, a versão de 59 trouxe um vanguardismo admirável para a sua época, havendo um lamentável retrocesso na de 2016. O Ben-Hur antigo traz um teor homoafetivo (assumido pelo próprio roteirista, e não mera elucubração de terceiros) que consegue dar um impulso na trama, enquanto que, no atual, Judah e Messala são irmãos de criação e grandes amigos - mas só. Ademais, o clássico tinha como mote a sede de vingança do protagonista; agora, Ben-Hur é uma figura mais fraterna, que até busca vingança, mas que, no fundo, quer paz. O mote de agora é a bandeira do amor ao próximo, imperiosa em dias atuais. Não se duvida que o conteúdo é louvável, porém, exibido em formato deveras tradicional, tornando-se retrógrado. Vale dizer, a solidariedade e a tolerância são demandas sociais das mais urgentes - embora Trumps e Bolsonaros discordem -, contudo, a abordagem é tão clássica que faz com que a película não consiga se destacar na temática. Não apenas por afastar o relacionamento homoafetivo em potencial (que, em pleno 2016, podia muito bem avançar), mas também, por exemplo, ao perder a oportunidade de criar figuras femininas significativas. As mulheres estão lá como necessidade demográfica, não posicionamento ideológico. Assim, ao invés de apostar na exportação de conflitos sociais contemporâneos, o plot prefere não inovar e manter o status quo daquele tempo e os conflitos inerentes ao período, esperando que o espectador faça uma interpretação analógica. Naquele tempo, a luta era romanos versus judeus, pessoas sem lepra versus pessoas com lepra. Hoje, machistas versus pessoas de bom-senso, homofóbicos versus pessoas com cérebro, enfim, intolerantes de todos os tipos versus pessoas que respeitam as eventuais diferenças alheias. Francamente, os moldes adotados para transmitir a mensagem cristã de tolerância são suficientes para tocar as pessoas que hoje discriminam as minorias? Não seria melhor injetar temáticas mais atuais?

É por essas e outras que não há como não concluir que o roteiro é fraco, se comparado ao clássico, e ridículo, se comparado ao livro - é justo mencionar, porém, que quase todos os roteiros não fazem jus ao livro em que se baseiam. Ponto nodal para sua falha é a formação de personagens cujas motivações são pouco convincentes, consequência de fazer um filme enxuto. "O Senhor dos Anéis" não é uma trilogia apenas pela divisão original dos livros, mas porque, para manter a coerência sem prejuízo da profundidade, é preciso muito tempo de tela. Para uma narrativa extensa como "Ben-Hur", pouco mais de duas horas não são suficientes. De um lado, o protagonista flerta com o ateísmo ("se existe um Deus, por que ele não é justo para o mundo?"), de outro, é altruísta ao ajudar um zelote (correndo risco pessoal), depois, abraça a causa da vingança pessoal, para, no fim... nem é preciso dizer o que acontece. Judah é bipolar? Por sua vez, Messala vive uma vida inteira com a família que o criou, quando, repentinamente, como um rompante (seria uma ideia amadurecida não mostrada e que o espectador deve presumir?), decide virar soldado. Enquanto soldado, ele é contrário aos métodos sanguinários dos romanos, até ter uma nova mudança brusca para não se importar em ferir a própria família. Ou seja, Messala vive de rompantes? O africano ganancioso não sabe as habilidades de Ben-Hur em conduzir uma biga (até porque conhecimento teórico não é sinônimo de habilidade prática), ainda assim, aposta uma fortuna no judeu... apenas para ajudá-lo? Não soa crível que algumas personagens tomem certas atitudes, pois suas motivações são superficiais, quando não contraditórias. O prólogo veloz enuncia que o longa precisa ser acelerado, reduzindo dezoito anos em duas horas.

O que é feito em termos de construção de personagens é superficial e ocasionalmente contraditório, pois não há preocupação em dar a eles profundidade. Judah Ben-Hur é bipolar, mas isso não é patológico no roteiro porque a mensagem de solidariedade e a ação prevalecem - o mesmo vale para Messala. Isto é, deixar a coerência de lado, nesse quesito específico é proposital. É uma falha já prevista e de digestão possível, porque o que marca é o que é reiterado. Messala tem rompantes e chega a humilhar seu irmão de criação, contudo, majoritariamente, ele nutre bastante afeto por Judah, em sentido, é claro, fraternal, para que a comunidade cristã mais conservadora não fique chocada em razão de uma manifestação de amor entre pessoas do mesmo sexo, como na cena em que o carrega nas costas em razão de um acidente. O protagonista é vivido por Jack Huston, em atuação fajuta (comparar com Charlton Heston seria uma heresia!); o antagonista, por Toby Kebbell, um pouco mais convincente.

Também está no elenco Morgan Freeman, como um africano sem nome. Ironicamente, Freeman está lá para, exclusivamente, colocar o nome dos créditos, chamar mais espectadores e atuar no piloto-automático. Logo na primeira aparição, sua imponência é visível (e a filmagem em contraplongée colabora), mas muito mais pelo seu carisma do que pelo trabalho de atuação. Ao emprestar sua voz numa narração voice over no prólogo, o ator corrobora para a ideia de que sua mera presença é um atrativo, afinal, quem não gosta de Morgan Freeman? Porém, em termos dramáticos, o trabalho é frustrante, em especial quando se conhece o potencial do renomado ator. A frustração atinge o ápice na cena de discussão entre o africano e um arrogante Ben-Hur, quando este fala sobre sofrimento e aquele o corrige, declarando conhecer muito melhor a área - menciona uma história trágica relacionada ao filho e uma vida triste, sem jamais comover. Diametralmente oposto, Rodrigo Santoro dá outro quilate à parte dramática do longa: em apenas quatro aparições, sua versão de Jesus é a mais comovente do filme inteiro e melhor que muitas versões de Cristo que o cinema já viu. Evidentemente, não se pode exagerar e afirmar que é a melhor versão ou que ele é o grande atrativo: isso seria ufanismo desmedido. Santoro já provou ser competente desde "Carandiru" e não foi mal na primeira grande oportunidade hollywoodiana com "300" (as outras foram desprezíveis), porém, ainda não recebeu o espaço que pleiteia. De todo modo, o Jesus de Santoro possui um dos melhores e um dos piores elementos de "Ben-Hur". Ao abraçar um viés minimalista, não se trata de uma celebridade da época ou de um feiticeiro surpreendente, é um homem comum, um carpinteiro com um discurso afiado sobre a divindade que defende, e que é capaz de se sacrificar pelos outros, em especial pessoas em situação de vulnerabilidade. É uma versão mais modesta, mas não por isso menos atrativa. O problema não é do ator que, por outro lado, a ele é dado espaço exagerado. Jesus dá uma carga emocional mais persuasiva graças à boa atuação de Santoro, entretanto, é um coadjuvante de destaque demasiadamente grande. São só quatro aparições pontuais, como dito, todavia, ele permeia a fita com uma onipresença que inexiste nas demais versões. Cristo é mencionado sempre para revelar o momento histórico, não para auxiliar na condução da narrativa. Pior, desta vez não apenas Jesus é engrenagem narrativa como chega a ser quase um amigo de Ben-Hur, tamanho o exagero do seu destaque. Como afirmar que o filme é uma adaptação do livro, se passagens são retiradas de outra fonte (a Bíblia)? O resultado é essa sensação artificial de um filme gospel penetrando eventualmente um épico, não havendo êxito de destaque em nenhuma das áreas - ainda que a versão de Jesus, reitera-se, seja melhor que muitas outras que chegam ao cinema. Em especial na cena de crucificação, o desempenho de Santoro conduz a uma fixação em torno da personagem que certamente comoverá os cristãos mais emotivos. É até bonito de ver, mas a concepção da história de Ben-Hur não é a de um conto cristão de benevolência, havendo uma distorção do argumento original. Significa dizer que a liberdade criativa não apenas foi usada, mas abusada.

O erro acaba sendo fatal porque a direção de Timur Bekmambetov é inapta na faceta dramática do longa. Há cenas que chegam a ser risíveis, de tão artificial que é a emoção - exemplo claro é aquela em que Messala visita seus familiares, anos depois de consolidar-se como soldado romano. A comoção maior existe nas cenas de Jesus, porém, reitere-se que é graças ao trabalho do ator, visivelmente empenhado - ignore-se a trilha sonora constante e piegas, bem desnecessária. O saldo da direção é negativo: uma ótima elipse dos anos de Ben-Hur como escravo de galés, nada mais que ganhe notoriedade. Nem mesmo a cena da corrida de bigas consegue impressionar: os efeitos visuais não deslumbram, há um exagero de cortes e embelezamento (como os cavalos permanecem tão brancos naquela sujeira?) e um descolamento risível do real (como Ben-Hur consegue ouvir e seguir as orientações do africano naquela algazarra da corrida?). Como de costume, o 3D é dispensável, apesar de não ser ruim (bom uso de profundidade de campo, cenários com neve e chuva, nada novo e que faça a diferença). A fotografia é razoável, exceto na cena dos navios, que é tão escura que prejudica a nitidez (provavelmente esqueceram que o uso de óculos 3D já escurece a imagem). Por sua vez, a trilha sonora é lastimável, investindo na pieguice e, no final, no nonsense (qual a proximidade entre aquele pop moderno com a obra?).

Como se percebe, não são poucos os equívocos de "Ben-Hur", um filme claramente desnecessário e que não acrescenta nada em termos cinematográficos. Aposta em momentos de ação, drama e gospel, distanciando-se do conteúdo clássico que deu notoriedade ao fascinante enredo. É evidente que a versão de 1959 é infinitamente superior. No entanto, a modéstia do marketing não permite enganos: é uma variante menor de uma ideia gigantesca, algo que não alcança o brilhantismo ao nem sequer tentar. Há honestidade no trabalho, concebido para ser só mais um. Não fracassar nas bilheterias já lhe é suficiente. Fraco? Sim, mas existem muitos outros imensamente inferiores no mercado. Não é um remake desprezível como vários outros. Portanto, ainda que seja preferível o de 59, o atual é desnecessário, mas não completamente descartável ao revisitar um clássico, talvez dando maior notoriedade a uma história que merece ser conhecida. Quem sabe o espectador que desconhece vai atrás do vencedor de 11 prêmios do Oscar, ou do livro?

sábado, 20 de agosto de 2016

Rebecca, a Mulher Inesquecível -- Cinema com Rapadura

Não faço segredo que Alfred Hitchcock é um dos meus favoritos. Isso, porém, é gosto pessoal. O que é fato é que ele foi um dos melhores da história da sétima arte. Para a alegria do público, alguns cinemas adquiriram a versão relançada de REBECCA, A MULHER INESQUECÍVEL, longa simplesmente imperdível (ou seja, se, na sua cidade, está em cartaz, recomendo que não perca a oportunidade!) que representou um início espetacular do "mestre do suspense" em Hollywood. Confira a crítica deste filme nota 10 no Cinema com Rapadura clicando aqui.

Um Espião e Meio -- Cinema com Rapadura

UM ESPIÃO E MEIO é um filme fajuto, uma comédia rasa, que não ofende, mas está longe de agregar. Nota 6. Confira a crítica no Cinema com Rapadura clicando aqui.

P.S.: o blog ficou com poucas atualizações em razão do fluxo do cinema. Vários filmes (ao menos razoáveis), várias críticas; poucos filmes, poucas críticas. Por isso a utilidade da ferramenta ao lado, de lista de e-mail, em que você se cadastra e é avisado(a) assim que tiver post novo no blog.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Negócio das Arábias -- Razoável

Como se consegue prever do enredo genérico (o que é comum no cinema europeu, como no caso), NEGÓCIO DAS ARÁBIAS é uma verdadeira caixa de surpresas. Do ponto de vista da sinopse, o nome em inglês ("A Hologram for the King") é mais pertinente: o protagonista viaja a trabalho, dos EUA para a Arábia Saudita, com o objetivo de vender a um rei um holograma, pelo qual sua empresa de TI é responsável. O conflito - a dificuldade de achar conforto num país tão diferente, e, principalmente, de cumprir a missão (pois o rei nunca está para assistir à apresentação) - é básico e a sucessão de eventos costuma ser inusitada. O que pode ser bom - ou não.

Amparado no fenômeno cinematográfico relativo à hibridização dos gêneros, não é possível rotular o filme. Drama, comédia dramática, romance... tem um pouco de tudo. Normalmente isso é positivo, pois fincar as bases em um só terreno costuma ser um redutor frustrante. Nesse caso, significa um filme difuso de mensagem incerta. Isto é, qual é a "moral da história"? Não que não exista - e não será mencionada para que não haja spoiler nesta crítica -, mas não há pujança no quesito. Em termos práticos, o roteiro vive de erros e acertos, dando dois passos para a frente e um para trás. Tem alguma coragem com temas espinhosos como o terrorismo (que gera duas piadas, a segunda, em perspectiva diametralmente oposta à ótica estadunidense), mas abraça mesmo o abismo cultural entre EUA (país de origem do protagonista) e Arábia Saudita (seu novo lar provisório). É eficaz em alguns elementos para mencionar a globalização (o tablet logo no início, o motorista vendo as mesmas séries etc.), e tem engrenagens narrativas curiosas - em especial, o caroço nas costas. Merece destaque ainda a menção a Soren Kierkgaard na cena da festa, pois o filósofo entendia que o ser humano tem ampla liberdade (tão ampla que chega a ser incômoda, premissa essencialmente existencialista, corrente à qual ele se filiava), e o que se segue é justamente o exercício de tal liberdade. Todavia, não são poucas as pontas soltas: os flashbacks nebulosos (o divórcio, a posição dele na empresa, o real motivo de estar na Arábia Saudita - seria uma válvula de escape?) e as personagens não verticalizadas (em especial a filha e os colegas de trabalho) evitam que a trama seja digerida na íntegra.

Não se pode negar, porém, a sagacidade nas referências explícitas (além da já citada de Kierkgaard, outra, relativa a "Laurence da Arábia") e o delineio impecável da personalidade do protagonista - são essas as duas maiores virtudes do longa. Nesse sentido, o protagonista é Alan Clay, um homem de meia-idade que claramente tem problemas no seu cotidiano, tanto familiares (uma ex-mulher que continua tumultuando sua vida e uma filha que, apesar disso, parece estar do seu lado) quanto profissionais (um chefe (?) que questiona o seu mérito) e que encontra (não se sabe se propositalmente ou não) na Arábia Saudita um alívio temporário. Entretanto, Alan continua com problemas: os dos EUA permanecem, novas dificuldades no trabalho surgem e até mesmo um problema de saúde (que apenas parece receber atenção em demasia). Seu humor questionável é cativante, todavia, sem dúvida, é Tom Hanks que eleva o nível do filme a patamares mais altos. Sem Hanks, seria, sem dúvida, uma obra muito inferior. Não apenas pelo carisma do ator, nem somente pela sua habilidade inquestionável como ator, mas, em especial, pela sua capacidade invejável de injetar uma aura de "homem comum" a qualquer personagem - inclusive, facilitando a identificação cinematográfica secundária. Hanks brilha muito mais uma vez, sendo auxiliado por um elenco de apoio competente: a médica de Sarita Choudhury absorve os valores heterodoxos da personagem, respeitando as tradições do país, mas sem abrir mão da própria felicidade; Sidse Babett Knudsen convence como uma dinamarquesa bastante liberal, que aparentemente funcionará como "carta na manga" do plot, quando, na verdade, se revela pouco significativa, cabendo esta função à Dra. Zahra Hakem; e Alexander Black faz de Yousef um ótimo alívio cômico (que rende as melhores cenas de humor, que não são poucas). A participação de Ben Wishaw é quase imperceptível, de tão insignificante.

Tudo em bom nível, exceto Tom Tykwer, responsável por uma direção vacilante (e também pelo roteiro, mas baseado em livro de Dave Eggers). Há uma clara hesitação do ponto de vista narratológico, pois o rumo tomado pelo terceiro ato é tão distinto que se torna incômodo: transformar tudo em romance não é ruim, contudo, isso ocorre de forma brusca e quase não soa natural, não fosse o trabalho dos artistas envolvidos. Na verdade, o ritmo do terceiro ato é diverso do resto, dando à montagem maior estabilidade, que, porém, destoa de tudo que precede. Pode parecer paradoxal, mas a instabilidade que prevalece começa a acostumar. Os fatos acabam passando no limite da plausibilidade. A direção hesita tanto que o prólogo tem uma quebra da quarta parede que jamais se repete: remetendo a filmes como "A Grande Aposta" e "O Lobo de Wall Street" e parafraseando a música "Once in a Lifetime", a cena na verdade é um sonho que Alan tem dentro de um avião, dando a entender que o longa terá acidez ao abordar seus temas, o que não se verifica na prática. A metodologia desta cena não faz sentido também porque o sonho de Alan (num viés de realismo fantástico) não é constantemente reiterado - ou seja, são sonhos sem sentido. Como um todo, a película soa como um quebra-cabeças que não se encaixa perfeitamente, ao menos no que se refere ao tom da direção. Aliás, é preciso mencionar que a direção é sutil como uma marreta: o choque cultural de Alan no elevador (ao ser ignorado por jovens árabes entretidos com um jogo em um tablet) e os carros que o conduzem na empreitada (um, velho, com um motorista; outro, novo, que ele mesmo dirige; ambos representando o momentum na trama) são exemplos de como escancarar o que se pretende dizer. Isso tudo sem contar a insistência na piada da cadeira, um humor não muito engraçado e de significado duvidoso (seria a metáfora da tentativa frustrada?). O que deixa mais patente a ineficiência de Tykwer é uma cena de suspense em que Yousef conduz Alan por onde não deveria, na qual o suspense fica apenas na ideação, sem atmosfera nenhuma de expectativa.

O epílogo da presente crítica vai parecer incoerente, mas não é: "Negócio das Arábias" consegue ser razoável. Está muito longe das obras-primas das quais Hanks já participou, e também não é um filme com passagens inesquecíveis). Não obstante, ao expor fielmente uma realidade tão diferente da ocidental, traz um significativo acréscimo cultural ao mesmo tempo em que oferece entretenimento com momentos de romance e de comédia. Não é uma catarse cinematográfica, nem uma completa perda de tempo: é razoável.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Esquadrão Suicida -- Um flerte com a ruína (crítica SEM SPOILERS)

Não há dúvida que ESQUADRÃO SUICIDA era um dos filmes mais esperados de 2016, até porque o marketing da Warner foi maciço. Reconhecer que o filme é muito fraco é uma verdade inconveniente - parafraseando Al Gore -, dolorosa... porém, verdadeira. A decepção é gigantesca, visto que a expectativa era alta. Contudo, nem tudo que está lá é ruim - quase tudo, é verdade, mas não tudo. Pertence ao subgênero "filme de super-herói", e, mesmo frágil, não vence outros como "Quarteto Fantástico" (o mais recente) e "Demolidor". E mais: apesar de muito falho, consegue, minimamente, divertir o espectador comum - "espectador comum" deve ser entendido como aquele que não exige muito de um filme cuja pretensão é o entretenimento, em especial para os fãs de HQs. Isto é, a título de entretenimento fútil, o filme serve, nada acrescentando, todavia, a título cultural e/ou artístico. Não cabe ao crítico de cinema indicar se determinado filme deve ou não ser visto, pois mesmo os piores filmes têm algo a acrescentar - mesmo que seja um elemento que não deve ser inserido em filmes. Assim, o espectador que deseja deve sim ir ao cinema e tirar as próprias conclusões. Pode até mesmo gostar desta película: o ditado já diz que "gosto não se discute". Entretanto, gosto e qualidade não se confundem na sétima arte, logo, o fato de o público gostar não é incompatível com a má qualidade de uma película. O leitor tem direito de gostar de ES. Isso não o impede de admitir suas falhas grotescas.

A proposta inicial era de um filme subversivo, revolucionário. É evidente que o intento falhou homericamente. Aparentemente, o produto final era distinto, sendo alterado forçosa e artificialmente - e às pressas -, resultando em um longa infiel tanto à proposta original quanto às novas ideias. O que circula como boato (até porque a Warner jamais admitiria) é que a intenção do diretor David Ayer era em um sentido, mais sisudo e sombrio (no estilo Zack Snyder), intenção esta que foi concretizada em um longa-metragem (que seria a versão do diretor). Porém, após o sucesso de "Deadpool" com seu deboche e humor intenso, unido às reprovações de "Batman vs. Superman: a Origem da Justiça", os executivos da Warner ordenaram uma modificação, abrandando tudo o que foi feito mediante a inserção de humor e mesmo leveza na narrativa. A contragosto (a decisão veio "de cima"), Ayer refez parte do seu filme, inclusive regravando algumas cenas, diferentes do plano original. Foi feita uma montagem nova, em cima de uma montagem já feita. É como se a lasanha estivesse pronta, e a ordem fosse retirar alguns ingredientes para colocar outros. Claro, não daria certo. Talvez a ideia inicial fosse boa. Não importa: o que importa é o que foi visto no cinema, que é muito fraco.

O argumento, baseado nas HQs, é muito bom: uma agente do governo decide reunir criminosos presos que possuem habilidades especiais para que trabalhem em tarefas difíceis, talvez impossíveis (daí o nome "Esquadrão Suicida"), em troca de atenuantes na pena que lhes foi aplicada. No caso do filme, o plot é conectado aos acontecimentos de "Batman vs. Superman", e a agente do governo menciona o quanto o Homem de Aço modificou o entendimento de todos sobre a realidade. Aliás, para a humanidade não se tornar refém de um alienígena, veio a ideia de criar o time, desde que este jogasse em favor dos interesses governamentais, devendo ser submisso. A agente do governo é Amanda Waller, em interpretação magistral de Viola Davis (dois elogios em um só parágrafo!). A fidelidade à concepção original da personagem auxilia, além da sua relevância na narrativa, mas o talento de Davis é inegável. Waller é o fio condutor narrativo, cabe a ela apresentar, no Pentágono, a sua proposta, introduzindo cada um dos membros do Esquadrão, o que foi feito mediante a inserção de flashbacks. É ela quem menciona o arco dramático pessoal de Pistoleiro, por exemplo - um dos poucos que tem alguma verticalização. Waller é determinada, fria e calculista, enxergando todos ao seu redor como instrumentos para atingir seus fins (ou possíveis aliados úteis). Exatamente como nos quadrinhos. Davis é provavelmente uma das melhores atrizes da atualidade (seu trabalho em "Dúvida" não deixa dúvidas), conseguindo conduzir o papel com facilidade - basta olhar para o sorriso mórbido quando Pistoleiro acerta os alvos.

Apesar de tais virtudes, em especial o argumento promissor, o roteiro acaba sendo deveras frágil. A responsabilidade é do também diretor David Ayer. Tendo em vista que o vilão é entregue já no início, e sua ideação é pavorosa, o prejuízo já é enorme, pois dificilmente um filme de super-heróis se sustenta sem um bom vilão. Poderia ser feito suspense sobre quem seria enfrentado, mas não, a preferência foi por apresentar no primeiro ato, sem muita demora. O plano maléfico é despido de criatividade, chega a ser risível. A formação do lado antagonista também é esquisita, não ficando claro, por exemplo, o modus operandi. Em verdade, a construção do antagonismo é fatal, pois rocambolesco se for dada atenção ao fato que nada teria ocorrido se Waller tivesse ouvido um não. Aliás, qual a razão da demora do vilão? Ele queria esperar o grupo se preparar para enfrentá-lo? São incontáveis as "pontas soltas", podendo-se questionar vários eventos presentes na trama, que são ora inexplicáveis (ou simplesmente não explicados de forma decente, como o coração de Magia), ora incoerentes. A própria missão é obscura, parece que o roteiro é um mero pretexto para reunir icônicas personagens, como se formar personalidades e formar uma boa narrativa fosse despiciendo. Até mesmo o terceiro ato é uma tragédia: inverossímil, conta com um deus ex machina que evidentemente não é explicado e com um desfecho que não surpreende. Mesmo quando o plot parece tentar mostrar profundidade, acaba ficando na superfície: a amizade entre dois dos integrantes não se desenvolve, e a metáfora sobre a marginalização dos criminosos se resume a duas frases de Arlequina ("o que o mundo fez por nós? Ele nos odeia!").

Coube ao roteiro a construção das personagens, não sendo falso afirmar que existem alguns acertos na área. Isto é, há personagens cuja personalidade recebe alguma atenção - ao menos no que se refere aos que são diretamente envolvidos com o Esquadrão, integrantes ou não. Cinco personagens são mal desenvolvidos: Capitão Bumerangue, Crocodilo, Tenente Edwards, Katana e Dra. (?) June Moone. Jai Courtnei acabou com franquias clássicas que já deveriam ter acabado - "Duro de Matar" e "O Exterminador do Futuro" -, embora a culpa não seja (só) dele. Ele não atua mal como Capitão Bumerangue (mas também não atua bem), o problema é que a personagem é completamente descartável, basta imaginar o filme como se o Capitão não existisse: o resultado final seria um filme mais curto com exatamente a mesma narrativa. Facilmente, o pior papel. Ele não faz diferença nenhuma, estando lá para fazer número - e suas piadas não dão certo. Já o Crocodilo (Adewale Akinnuoye-Agbaje) tem relevância como engrenagem narrativa (totalmente diferente do anterior), em especial no terceiro ato, contudo, seu arco dramático é zero - assim como o do Tenente Edwards (Scott Eastwood), o que até faz sentido, não fosse o ator alguém que já foi protagonista em um filme também fraquíssimo e que recusou um importante papel no filme-solo da Mulher Maravilha. Quanto à Katana (Karen Fukuhara), é triste ver uma personagem que tem um drama pessoal bem cativante (que é mencionado rapidamente) caindo de paraquedas como guarda-costas de um militar numa empreitada suicida (por que ela está lá? O que ela ganha?). Cara Delevingne é uma modelo que foi iludida com a farsa de que poderia ser boa atriz e agora se dedica ao cinema, inclusive com papéis de destaque que ela acaba estragando. Em ES, ela finge que interpreta duas personagens, a arqueóloga June Moone e a entidade Magia, que a possui quando invocada. Em síntese, tanta é a importância de Magia que June tem personalidade nula, reduzida a um romance criado para justificar algumas amarras narrativas. Diversamente, Magia é uma das seis personagens das quais é possível extrair alguma virtude (ou algum mínimo grau de razoabilidade), apesar dos vários defeitos: Amanda Waller, Rick Flag, Magia, El Diablo, Arlequina e Pistoleiro. A já mencionada Viola Davis é novamente artisticamente deslumbrante - sem contar que Amanda Waller é mola propulsora do roteiro. O próprio Rick Flag de Joel Kinnaman é competente como militar submetido a ordens superiores cujo raciocínio é movido pelo alcance da eficiência tática, sem desprezar motivos pessoais. Não que Kinnaman seja um primor, todavia, o enfrentamento dos subordinados é convincente. Ele está na razoabilidade, não na virtude. Magia merece algumas palavras não pela atuação de Cara Delevingne, que é sempre péssima, mas pelo aparato que a cerca, efeitos coerentes em relação à proposta. Ok, ela também prejudica bastante o terceiro ato... mas a culpa é mais da condução da personagem, não da concepção. El Diablo é uma grata surpresa, não apenas pelo bom trabalho de Jay Hernandez, mas porque um dos poucos flashbacks realmente úteis é para apresentar seu trauma pessoal. Mais uma vez, no terceiro ato há um grave equívoco no roteiro, que deixa de explicar o que ocorre... mas, como dito, é possível extrair alguma virtude. Sim, Arlequina e Pistoleiro claramente recebem os holofotes muito mais que os outros, inclusive em detrimento deles, merecendo um parágrafo à parte. Isso é normal em filmes com muitas personagens, inclusive em filmes da Marvel, pois é muito difícil dar atenção a todos.

Arlequina é quase um acerto. Margot Robbie atua muito bem, sabendo os limites em que pode transitar. Sua personagem é sensual, não devendo exagerar - duas cenas são um pouco mais apelativas, mas nada absurdo, ao revés, coerente com o lado sexy que ela possui. Sua instabilidade psicológica é charmosa, porém, acaba sendo repetitiva e cansando - o problema, mais uma vez, é do roteiro, e não da atriz. Fica claro que a Arlequina é louca em razão de abusos praticados pelo Coringa (a cena sádica é tão efêmera que decepciona), sendo dispensável repetir tantas vezes, como se o espectador tivesse um défice que impedisse compreender tal faceta. De todo modo, a construção de Arlequina é uma das melhores, havendo até mesmo suspiros de fanservice com momentos como a roupa rubro-negra que remete a um jogo de cartas e o apelido carinhoso referente ao seu amado. A insistência incomoda, mas o carisma da atriz (potencializado por sua beleza inconteste) compensa. Por sua vez, Will Smith faz um esforço hercúleo para melhorar os traços concedidos ao Pistoleiro. O equívoco maior é que ele é muito mais mocinho que vilão, inclusive para além dos seus próprios interesses - nessa área, é explorado um leve arco dramático, que, todavia, segue lacunoso com uma esposa praticamente fantasma. Algumas piadas não dão certo, mas Smith obra de forma competente no que lhe coube.

E o Coringa? Como se sabe, ele não faz parte do Esquadrão, estando lá pela conexão íntima com a Arlequina (aparecendo em flashbacks, em especial). Coube a Jared Leto a difícil tarefa de "substituir" Heath Ledger como Joker. A versão mafiosa do Coringa tem algum potencial, mas a aparição do Coringa de Leto é tão superficial, esparsa e temporalmente reduzida que é artisticamente desonesto comparar seu trabalho com os antecessores, como Ledger. Afinal, enquanto o saudoso Ledger teve um filme inteiro, um roteiro que o contemplava como vilão principal e uma verticalização, a Leto foram renegados poucos minutos sem conexão. Desta vez, não se sabe que tipo de Joker está lá, sendo fato conhecida, apenas, reitera-se, sua relação com a Arlequina. Se nem o ator conhece a personalidade, como pode fazer um bom trabalho? Jared Leto é reconhecidamente um profissional de qualidade (já há tempos, como em "Réquiem para um Sonho"), razão pela qual merece um voto de confiança e de aguardo.

Sobre David Ayer não foi bem no roteiro, pode-se dizer que sua direção é péssima. Questionar se ele é pior como roteirista ou como diretor é uma pergunta ingrata, quase retórica. A falta de nitidez da batalha final é exemplo da imperícia no trabalho, embora a primeira cena de batalha seja decente, com os recursos básicos como CGI, slow motion e cortes rápidos - o que até Michael Bay conhece. No entanto, o que Ayer faz é tão fajuto que não há nenhuma cena marcante - as melhores estão no trailer, ainda que ausentes no filme (o que ainda será explicado*). É normal filmes de heróis terem cenas que mereçam menção, mas não ES, que é descartável como um todo. A cena da primeira transformação de June Moone em Magia é criativa, mas não chega a impressionar. Ainda nos elementos técnicos, a montagem é absurdamente caótica, fazendo o filme parecer um longa amador com cenas desconexas e quase aleatórias. Exemplo mais claro é o uso excessivo de flashbacks, a maioria deles dispensáveis, como a cena de Arlequina e Coringa em um tanque (cena bonita, mas sem motivo algum para estar lá) e a cena com a breve aparição do rapper/ator Common. Isso prevalece na película inteira, há um ritmo frenético que torna tudo superficial é demasiado confuso, o que incomodaria ao nível insuportável, não fosse a fragilidade da trama, que prevalece. É na mesma linha de pensamento a aplicação da trilha sonora, que até tem músicas boas, mas escolhidas de forma completamente aleatória, sem nexo com as cenas em que está, e usada de forma constante. O que parece é que o filme é acessório, sendo principal a música que toca, e não o contrário. Isto é, a trilha sonora é cansativa, e, apesar de as músicas serem boas, não fazem sentido naquele universo. Para não dizer que não há nada positivo do ponto de vista essencialmente técnico, a maquiagem é boa, em especial no casal palhaço e no Crocodilo.

ESQUADRÃO SUICIDA é um filme decepcionante, em especial pela expectativa gerada. Talvez a Warner tenha forçado um Frankenstein, mas fato é que o que chegou aos cinemas é, no mínimo, fraquíssimo. É sim possível pescar um ou outro elemento positivo, mas, em visão macro, o longa é insustentável. Não obstante, é importante reiterar que ele consegue divertir por cenas ou momentos pontuais, em especial para quem sente maior apreço pelo universo DC, representando algum entretenimento não completamente inútil. Em termos cinematográficos, porém, tenta ser um manual do que não deve ser feito. Um verdadeiro flerte com a ruína dos planos do estúdio.

P.S.: para quem não viu, recomendo aguardar um pouco para assistir a uma (única) cena pós-créditos, que é importante.
P.S.2: "o que ainda será explicado*". O que deixa clara a mudança é o fato de haver cenas presentes nos trailers e ausentes no filme. Exemplo: Arlequina oferecendo um drinque para El Diablo, que pede água (e vem uma piada logo após).
P.S.3: o 3D do filme é desnecessário, serve apenas para encarecer o ingresso.

P.S.4: a Warner precisa aprender, de uma vez com todas, a não entregar tudo nos trailers. Com o perdão do trocadilho, é um suicídio!

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

De Longe Te Observo -- Podia ter ido mais longe

Imagine um filme venezuelano-mexicano (coprodução) que participa de um festival europeu concorrendo contra "O Clã" (filme argentino dirigido por Pablo Trapero, produzido por este e por Pedro Almodóvar e estrelado por Guillermo Francela) e contra "A Garota Dinamarquesa" (premiado, badalado, dirigido por Tom Hooper e estrelado pelo recém-vencedor do Oscar Eddie Redmayne - sem contar que posteriormente figurou em algumas categorias do Oscar). Foi essa a difícil empreitada de DE LONGE TE OBSERVO no Festival de Veneza em 2015 e, para a surpresa da maioria, o longa foi consagrado com o Leão de Ouro, prêmio máximo da competição.


De forma didática, o prólogo faz uma introdução eficaz sobre o enredo: um homem de meia-idade que procura um rapaz que aceite satisfazê-lo sexualmente mediante considerável pagamento. O que se imagina é que ele pretende uma relação sexual, quando, na verdade, o que ele quer é que o rapaz tire a camiseta, fique de costas, abaixe a calça para mostrar parcialmente a nudez (não até o chão)... enquanto se masturba ao olhar. Apenas olhar. A edição de som focada no barulho do trânsito, a câmera na nuca em plongée e a pouca profundidade de campo indicam uma direção primorosa. Isto é, o trabalho inicial é impecável. Entretanto, o esmero técnico do prólogo não persiste na íntegra da obra, exceto no que se refere à profundidade de campo. De todo modo, a sequência inicial é bastante elucidativo: uma personagem que estuda o local onde fará a seleção, escolhe o rapaz que interessa, inicia a abordagem (entra no ônibus, senta ao lado e oferece dinheiro), leva o rapaz para a própria residência, senta-se numa poltrona e finalmente pede para o rapaz tirar a camisa e abaixar um pouco a calça enquanto se masturba.

Esta personagem é o protagonista Armando (Alfredo Castro), que claramente é um voyeurista sexual. Pode parecer pleonasmo, mas, na verdade, o cinema é uma atividade voyeurista por excelência: a psicanálise tem uma aproximação íntima (eventual trocadilho não é proposital) com a sétima arte, pois é a seara em que o prazer é externo e intangível. O espectador obtém prazer ao assistir a um filme, mas está ontologicamente distante dele, não podendo nele adentrar, muito menos nele fazer modificações. Talvez o voyeurismo constitua ainda uma característica humana dos novos tempos, numa sociedade artificial em que os valores humanos cedem espaço para formalismos e enriquecimento, onde as pessoas preferem o convívio virtual que a tecnologia propicia ao olhar próximo - preferem, em última análise, conviver com a tecnologia (as redes sociais são exemplo, pois o contato é com o computador, não com a pessoa em si) a ter contato físico afetivo com outrem. Vale dizer, há aversão ao outro, perceptível pelo distanciamento ideológico gerado pela ditadura das opiniões (ojeriza à democracia), que causa o distanciamento empírico amparado pela invasão da tecnologia ao cotidiano. Afinal, um filme não é literal, há algo além do que está lá expresso. A metáfora pode parecer ganhar proporções exageradas, como se fossem meras elucubrações, todavia, a tarefa aqui é ultrapassar a superfície das aparências.

A construção de Armando (como personagem) é sagaz ao apostar no minimalismo. É um grisalho solitário com boas condições financeiras e uma rotina de trabalho ordinária (com próteses dentárias), mas que esconde sua vida clandestina como voyeurista homossexual. O voyeurismo, inclusive, é implacável na personagem, que é um observador por excelência - mesmo quando tem a oportunidade de um algo a mais. A interpretação de Castro, sempre contida, é harmônica com a proposta. Tudo muda quando Armando conhece Elder (Luis Silva), segundo rapaz que ele aborda para a própria satisfação sexual. Nas aparências, Elder é parecido com o primeiro: jovem, másculo e magro. Contudo, Elder não é como os outros, pois não apenas não faz o que Armando deseja (embora tire a camisa) como leva até mais que o dinheiro oferecido (a carteira e uma estátua decorativa). Armando é, inicialmente, vítima de roubo praticado por Elder, e, incoerentemente, volta a procurar o rapaz. Tal incoerência, todavia, não consiste em inverossimilhança no roteiro, pois o que o protagonista quer é concretizar o intento voyeurista. Na verdade, Elder se torna uma obsessão para ele.

Da mesma forma, a construção de Elder também é precisa. Agressivo desde o início (ao responder com violência, ainda que suave, à primeira abordagem de Armando), com linguagem repleta de palavras de baixo calão, o rapaz é claramente condicionado culturalmente em relação à realidade que conhece. Tanto é assim que é fascinante o olhar infantil com que observa o trabalho do protagonista. Elder diz que, ao contrário de Armando, bateria nos filhos "para saberem logo como é a vida". Ao que tudo indica, Elder é uma pessoa socialmente marginalizada cuja personalidade agressiva constitui resposta à vida sofrida. Por outro lado, ele é vítima e também agressor social, pois atos de vandalismo - e crimes, é claro - são, para ele, cotidianos. Não surpreende ele, juntamente com amigos, atacar outros pelas costas, desarmados, com um cano. Ele é assim. Silva compreendeu bem o que seria necessário para o papel, explorando bem o que seu corpo dispõe - em especial a linguagem corporal expansiva e a entonação vocal minguante - para fazer um belo trabalho.

Porém, é charmosa a maneira pela qual o longa tem suas bases em alterações suaves e em contraposições radicais. Nesse sentido, é Elder o responsável pelas alterações suaves. Não que ele mude da água para o vinho, ao revés, a personalidade moralmente repugnante continua lá encrustada. Todavia, para quem agride um desconhecido na casa deste (inclusive golpeando-o mediante chutes quando caído no chão), lavar a louça como agradecimento por uma refeição é um enorme avanço. No fundo, o que ocorre é que ele abandona o egocentrismo, sem modificar substancialmente quem é para além disso. Ainda, são vários os contrastes que figuram como pilares do longa, seara em que a direção de arte ganha força. Por exemplo, a casa de Armando tem pesada decoração, repleta de objetos, e filmada numa fotografia escura, totalmente distinta da fotografia clara e decoração discreta - além de pobre, com panos ao invés de portas e cortinas - da casa de Elder. O contexto que condiciona as personagens também é de contrastes, em especial a profissão (próteses dentárias versus mecânico). O resultado, além da personalidade distinta, é a conduta diferenciada, inclusive nas pequenas coisas - enquanto Armando prefere vinho, Elder costuma beber cerveja. O próprio figurino atenta para o contraste: Armando usa sempre roupas mais formais, enquanto o jovem, exceto em uma cena específica, usa regatas e calças jeans - inclusive, com cores vivas que dão lugar ao branco, referente à personalidade abrandada (à exceção de uma blusa vermelha após cometer novo delito). Ambos gostam de estar na posição de superioridade, mas de formas diferentes: enquanto Armando compra a superioridade, Elder é um dominador - o que fica claro ao liderar a gangue local e ao guardar em casa a estátua roubada, símbolo do prêmio advindo da dominação.

A conclusão é que Lorenzo Vigas Castes faz um ótimo trabalho de direção, apesar de algumas falhas pontuais. Esquecer o sangue de um ferimento de faca beira o amadorismo, contudo, é louvável a elegância nas cenas que poderiam se tornar vulgares, notadamente as de violência e de sexo. Aliás, nudez e sexo são bastante atenuados: embora logo no prólogo haja um rapaz desnudo, seu corpo fica desfocado; embora saibamos que Armando está se masturbando, não há nada explícito (apenas sugestão). O diretor foge do apelativo sem descolar da realidade, afinal, o voyeurismo do protagonista exige nudez, que, todavia, é elemento acessório justificado pelo contexto, não está lá por si só. Há amplo domínio da mise-en-scène, evidenciado na cena em que Armando discute com a sua irmã, ela, calma, postada em frente a uma parede em tom pastel, ele, brabo, ao lado de um cepo de facas. Talvez seja exagerada a aposta na pouca profundidade de campo e em rack focus episódicos, entretanto, só o uso de tais ferramentas leva à conclusão de que há conhecimento da linguagem cinematográfica, algo que diretores badalados eventualmente não demonstram. Da mesma forma, a câmera subjetiva numa cena de perseguição poderia ser mais usada (ou seja, há rack focus em demasia e falta câmera subjetiva), ainda mais em se tratando de voyeurismo. Enfim, o saldo da direção é positivo e Vigas Castes é bastante promissor.

Não se pode olvidar que o Calcanhar de Aquiles do filme reside na estrutura narrativa. É isso, pois, que mais incomoda e prejudica um trabalho que talvez pudesse ser excelente - quando acaba sendo "apenas 'bom". São dois os grandes defeitos. O primeiro deles é o encaminhamento equivocado da narrativa, com rumo previsível e desfecho inverossímil. Exceto pela interação inicial entre Armando e Elder, o encaminhamento não surpreende e se torna até mesmo um pouco tedioso, justamente pela previsibilidade. O epílogo é bom apenas pelo trabalho dos atores, pois, em termos de plot, não é nada crível. Se a ideia era surpreender, o fez negativamente. O segundo defeito é que o longa é repleto de lacunas imensas, deixando o espectador sem resposta sobre questões que poderiam ser fundamentais. A principal lacuna - e isso não é spoiler, pois não demora para ser exposta - se refere aos pais das personagens. Tanto Armando quanto Elder têm um relacionamento conturbado com seus (respectivos) pais, todavia, não se explica o porquê da mágoa. Em especial de Armando, que é reticente sobre o tema. Os dois são unidos pelo trauma - seja ele qual for - paterno, trauma este que fica oculto do público. E o espectador terá razão ao fundamentar o desagrado com o filme em razão de vaguezas e furos de roteiro, que realmente prejudicam o produto final.

Isso tudo significa que DE LONGE TE OBSERVO tem predicados técnicos de relevo, que, contudo, são eclipsados por um roteiro mal construído que desperdiça um argumento interessante. Culturalmente o filme agrega, em especial por expor o abismo socioeconômico presente em Caracas, além da reflexão já exposta. Mas é uma película que podia ter ido mais longe.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

O Bom Gigante Amigo -- Cinema com Rapadura

Steven Spielberg é sinônimo de qualidade? E se a Disney estiver junto? Seu novo filme, O BOM GIGANTE AMIGO, tem bons atributos, mas também alguns defeitos... entenda o motivo da nota 7,5 lendo a minha crítica ao clicar aqui.