terça-feira, 5 de julho de 2016

Procurando Dory (e o curta-metragem PIPER) -- Animação divertida e agradável, mas inofensiva

Melhor que perguntar se é necessária é averiguar se a continuação é boa. Em geral, acaba sendo inferior ao longa anterior, especialmente quando não é planejada. Um grande hiato temporal também costuma ser prejudicial. No entanto, essas são ilações meramente teóricas que talvez nem tenham aplicabilidade no universo Pixar. É por isso que, apesar de soar simplista, a síntese desta crítica é cabível da seguinte forma: divertido e inofensivo, "Procurando Dory" é uma animação muito agradável.

Antes, porém, de verticalizar no principal, cabe mencionar que a Pixar (Disney-Pixar) exibe o curta-metragem "Piper" como precedente à obra principal, de qualidade ainda superior. "Piper" é pensado como um "aperitivo", mas supera o "prato principal". Dotado do que se poderia rotular como um "realismo fofo", o plot do curta-metragem de animação (pré-candidato ao Oscar, supostamente) é centrado em um pássaro bebê que descobre o mundo e seus desafios, precisando conseguir a sua própria comida para sobreviver, ainda que arrisque sua integridade. Em outras palavras, são animais fazendo o que a natureza lhes impõe, sem nada fantasioso - no máximo, numa visão edulcorada por um CGI de perfeição técnica impressionante. Com efeito, a praia e seus arredores (rochas, areia, água do mar, grama, ondas), além do que aparece no local (os pássaros, os caracóis etc.), são retratados com uma aparência tão real que flerta com o surreal (sabendo que os efeitos são computadorizados). É assim que a Pixar fascina ao recortar um episódio banal da vida de uma espécie de pássaro (um animal qualquer agindo como um animal qualquer) para fazer uma obra-prima de primeiríssima qualidade. Digno de aplausos!

É na mesma esteira de pensamento que se pode analisar o "prato principal". Preliminarmente, passaram-se os anos e a Pixar aprimorou ainda mais uma tecnologia que já era fantástica. Parece esquisita uma demora de mais de uma década para elaborar uma continuação (que, ao revés, se passa um ano depois), ainda mais depois do sucesso estrondoso de "Procurando Nemo". Não obstante, ainda que perca em relação à originalidade do predecessor, "Procurando Dory" não representa um caça-níquel como a imensa maioria das continuações forçadas. Em 2003, Nemo e sua turma encantaram em razão da dificuldade (à época) de se fazer uma animação totalmente digital em ambiente marinho. Se hoje a dificuldade é reduzida, a riqueza de detalhes no mar e nos animais suavemente antropomorfizados é magnífica. O reflexo de Marlin e Nemo no límpido mar estadunidense (numa área menos profunda) é exemplo da atenção que é concedida, justamente, aos detalhes. Quanto à antropomorfização dos animais, trata-se do oposto ao "Piper", enriquecendo a trama enquanto narrativa - porém, reduzindo a sobriedade visual.

Nesse ínterim, o prólogo é com uma fofíssima Dory ainda criança aprendendo com os pais o que acaba sendo essencial para a sua vida, resumida da seguinte forma: "oi, meu nome é Dory e eu sofro de perda de memória recente". Após várias elipses com Dory adolescente e adulta, ela se perde da família, conhece Marlin e o ajuda a encontrar seu filho Nemo, passando a conviver com eles, como uma nova família. Isso até se lembrar dos pais, momento em que decide assumir a difícil empreitada de encontrá-los novamente (difícil, afinal, de início ela não lembra sequer seus nomes). É quando Dory se separa de Marlin e Nemo que o título faz sentido, iniciando então duas linhas narrativas concomitantes (Marlin e Nemo versus Dory), com vários flashbacks (lembranças da infância com os pais) e participações especiais. Especificamente quanto às participações especiais, além de aparecerem "velhos amigos", novas personagens se tornam engrenagens narrativas relevantes, em especial o polvo Hank, personagem nova mais cativante ao constituir um pseudo-anti-herói interesseiro. Nemo continua sendo o aventureiro que cobra do pai postura mais audaciosa; Marlin continua sendo o pai super-protetor e super-cauteloso que foge de qualquer perigo hipotético, mas que acaba enfrentando-o quando necessário (pois Dory é uma amiga que merece tal enfrentamento); e Dory, agora protagonista, continua sendo a peixe cirurgião-paleta que ganhou a simpatia de gerações. Se houver um terceiro filme, porém, Hank aparece como melhor candidato a protagonista. A personalidade ambígua de Hank concede à trama maior fluidez e mesmo verossimilhança. Nemo é pouco significativo, Marlin é uma âncora de tédio e Dory é a vítima de si. Não havia como o polvo não se destacar.

No que se refere à dublagem brasileira, as principais vozes antigas permanecem, exceto a de Nemo - o que não afeta tanto, afinal, ele agora é coadjuvante menor. É bem verdade que a inusitada participação de Marília Gabriela é charmosa (não pelo trabalho em si, mas pelo papel), contudo, Antônio Tabet é gratíssima surpresa cedendo uma voz a Hank - melhor dizer "uma voz", e não "a sua voz", pois, ao contrário de Gabriela, Tabet não interpreta a si mesmo na dublagem.

Como é fácil perceber, "Procurando Dory" é uma animação de um gênero híbrido ao alternar momentos de ação, humor, aventura e mesmo drama. Serve para um público variado ao elaborar uma miscelânea tão plural. Ou seja, trata-se de uma mescla bem elaborada que mexe com as emoções do espectador em razão do trânsito nos gêneros. O viés de ação é o mais empolgante, ainda que cansativo, com direito a uma cena épica (quiçá a melhor do longa) moldada em slow motion e com a voz inconfundível de Louis Armstrong na imortal "What a wonderful world" (embora a versão de Sia para "Unforgettable" chame mais a atenção por surpreender mais). É Dory a responsável pela imensa maioria das piadas, todas pesadamente infantis e ingênuas (e quase todas em razão do seu problema de perda de memória recente). De modo geral, o argumento é do gênero aventura, tudo para justificar mensagens pueris (destaque para a valorização da família e dos amigos), sempre voltadas ao público infantil. A mensagem de valorização do meio ambiente, com ápice no "tanque do pavor", é salutar em tempos hodiernos, não há nada de errado, todavia, ao retrato inofensivo faltou uma acidez que seria mais digna de elogios - vale dizer, o longa torna-se quase insosso neste quesito. No olhar mais rigoroso, ao filme faltou uma pitada intelectual e reflexiva que as boas animações gostam de ter. Não se pode nivelar por baixo, não é?

Entretanto, não se pode afirmar que o filme é completamente raso. Os detalhes biológicos são curiosidades interessantes (como as anêmonas constituindo lares da espécie peixe-palhaço como Nemo e Marlin - ensinamento presente no primeiro filme -, a característica dos polvos de ter três corações etc.), mas eventualmente sem o rigor científico exigível, criando ilusões - as belugas até podem ter um senso de localização apurado, mas não naquele nível, a mesma lógica se aplica aos polvos, que se camuflam, mas não daquela maneira fantasiosa.

As anunciadas polêmicas que quase geraram veto ao filme não se concretizam. Não há nada que aponte para a transexualidade da arraia. Além disso, o possível casal de lésbicas é irrelevante, pois são figurantes que aparecem num piscar de olhos.

Como saldo, o que fica é que "Procurando Dory" é uma animação divertida e agradável, ainda que inofensiva. Perto de "Divertida Mente" ou "Zootopia", tão intelectualmente superiores, trata-se de uma animação menor. Não é ruim, não é uma animação qualquer. Apenas... faltou ambição. A Pixar pode mais, muito mais.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Como Eu Era Antes de Você -- É possível trilhar novos rumos

Quando se fala em romance, logo se pensa em um nome: Nicholas Sparks. Ele é, de fato, o grande nome atual na área, com muitos livros que se tornaram filmes. Todos iguais, com casais belos e felizes apesar dos contratempos. Muito padrão, muito clichê, muito chato. Jojo Moyes é um nome muito menos conhecido, mas foi responsável pelo livro e pelo roteiro do agora filme "COMO EU ERA ANTES DE VOCÊ", que, se, não é uma obra-prima da sétima arte, é honesto e fiel em relação às próprias premissas. Um pseudo-romance levemente dramático nota 6.

Nesse sentido, é no roteiro que residem os trunfos e também os defeitos do longa. Considerando que a autora do livro no qual a película se baseia é também a roteirista desta, os defeitos referidos estão em ambos. É provável que o livro seja melhor, como costuma acontecer nas adaptações, mas a análise aqui é exclusivamente fílmica. Nesse quesito, o problema nuclear é o tratamento raso da delicada questão do suicídio assistido. Trata-se de uma temática complexa que por si só afasta uma solução peremptória - leia-se, uma verdade absoluta. A censura de associar a tetraplegia a uma condição de vida tão infeliz a ponto de se querer o suicídio faz sentido, mas a matéria é complicada demais para julgar a vontade alheia. Ainda mais no caso de Will, que levava uma vida bem ativa antes do acidente. No caso do filme, o suicídio assistido está lá, mas não é aprofundado em momento algum. Seria salutar que as personagens discutissem o tema, mas o plot limita-se no básico: Will quer, quem gosta dele não quer - exceto o pai, por respeitar a sua vontade e a sua autonomia. A abordagem é demasiadamente rasa, ficando aquém do que deveria. Surpreendentemente, também não são arrebatadores os momentos românticos do casal, vez que Will está constantemente desanimado. Eles têm momentos felizes e românticos, mas longe daquela paixão estridente que a sétima arte costuma retratar. Falta contundência, falta construção em camadas.

Aliás, falta densidade também na construção da personalidade de Will, o que, inclusive, prejudica a identificação cinematográfica secundária (sensação psíquica em que o espectador se coloca no lugar da personagem). Não é possível comprar o objetivo de Will, o suicídio assistido, porque não se sabe o seu sofrimento para além do óbvio. Que vida levava antes? O quanto sofre agora? Pouco disso é de conhecimento do espectador, que precisa fazer uma imensa sutura (trabalho psíquico em que o espectador supre eventuais lacunas - em geral, plausíveis - do roteiro). Ninguém se afeiçoa por Will porque a personagem é unidimensional. Isso até facilitou o trabalho do ator Sam Clafin, que, para além da restrição dos movimentos, mantém sempre o mesmo tom de voz e a expressão de indiferença. Ou seja, uma interpretação que uma máquina faria com a mesma qualidade.

Se do casal Will é o elo frágil, o mesmo não se pode dizer de Lou, que tem um carisma imensurável. Não existem grandes cenas emblemáticas, a que chega mais perto é a da empolgação na corrida de cavalos, que chega a ser contagiante. Não obstante, a destreza de Emilia Clarke no papel faz com que Louisa encante em tudo que faz. Como não se maravilhar diante da garota que arranca a etiqueta da camisa de Will com os dentes, sem se importar com a formalidade do evento? Negar seu carisma significaria insensibilidade absurda. É bem verdade que o viés infantil e desastrado atribuído à personagem incomoda pela exposição infantil, mas isso é culpa da direção, não da atriz. É por isso que ela, atrapalhada, rasga a saia na entrevista, derruba objetos ao adentrar em um recinto e assim por diante - o próprio Will a satiriza em razão do seu jeito (que não deixa de ser encantador). Enfim, Clarke imprime em Louisa um carisma fenomenal em razão do qual um simples sorriso pode ser extasiante. Porém, no drama, ela não convence, sempre soando artificial nos momentos ruins que a personagem sofre.

Dos coadjuvantes, os pais de Will, vividos por Janet McTeer e Charles Dance têm aparições pequenas. Diversamente, Stephen Peacocke interpreta Nathan, enfermeiro de Will, aparecendo bastante e de forma competente - o australiano parece promissor. Contudo, é Matthew Lewis o coadjuvante de maior destaque. Lewis, o eterno Neville Longgbottom, atua como Patrick, o realista namorado ególatra de Louisa. Nada romântico, chega atrasado para o aniversário dela e a entrega um presente risível (Will o vence, nesse caso). Pat é tão obcecado por exercícios que chega a elaborar metáforas com base neles. Restrito, só consegue falar com a namorada para enaltecer sua característica de atleta, tamanha a sua obsessão dedicação. O triângulo amaroso que se poderia concluir praticamente inexiste, pois ele detém o título de namorado, nunca fazendo jus a ele. De todo modo, surpreende Neville Lewis aparecendo (e convencendo) como atleta.

Como se percebe, o roteiro tem obviedades e superficialidades, mas não é clichê na narrativa ao fugir da visão platônica do romance (esta é sua grande virtude). Ao revés, o casal Lou-Will tem momentos infelizes e decepcionantes, como o fracasso em adentrar em um restaurante e o passeio ruim na corrida de cavalos. Com Will e Lou, nem tudo são flores, nem tudo é perfeito, o que evoca um paradigma mais realista e crível. Isso é salutar porque os romances hollywoodianos costumam criar universos diegéticos surreais e irritantes frágeis, de tão perfeitos. A vida a dois jamais é perfeita, conclusão óbvia em razão do natural atrito da interação humana - sem contar o imprevisto e o acaso. O gatilho narrativo da simpatia de Will por Lou quando ela o enfrenta some diante de uma diegese tão plausível. "A Culpa é das Estrelas" segue a mesma esteira, embora, como produto final, seja muito melhor.

O que acaba prejudicando bastante "Como Eu Era Antes de Você" é a fraca direção da inexperiente Thea Sharrock. Exemplo: um prólogo que inicia com visual claro (ênfase no branco), como roupa de cama, decoração e camisa de Will brancas e que se encerra com seu atropelamento na chuva. Planos que se passam na chuva depois dos planos perfeitos indicam o que se torna ululante: algo ruim vai acontecer. Conclusão? A diretora não sabe ser sutil, não conhece o poder da sugestão no cinema. É por isso também que Lou rasga a saia na entrevista de emprego, ou que Will aparece de barba e cabelo compridos (e depois muda). A mensagem é tão explícita que subestima o espectador. Certamente foi orientação da diretora o figurino assustador de Clark, com escopo de evidenciar sua cafonice. Não é necessário ter grandes conhecimentos de moda para perceber o quão brega ela é ao se vestir - o que, por outro lado, também coloca holofotes na sua personalidade marcante. Uniu-se a tudo isso uma trilha sonora cool e cenários belíssimos, mas nada mais que chame a atenção.

Por tais fundamentos não se pode afirmar que "Como Eu Era Antes de Você" é ruim. Mas também não é bom. Trata-se de um filme comum que, se não mexe com as emoções do espectador, cumpre a tarefa de entreter e talvez estimule um pouco a reflexão. Ainda mais importante, aponta no caminho de um realismo aprazível ao agradar certo público. Isto é, mostra que é possível trilhar novos rumos neste segmento um pouco defasado. O futuro parece promissor.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

O Dono do Jogo -- Cinema com Rapadura

O DONO DO JOGO já saiu de cartaz em muitos cinemas, na verdade, é uma produção modesta de 2014. Só agora escrevi a sua crítica, publicada no Cinema com Rapadura. Filme nota 4. Para compreender, clique aqui e leia a crítica.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Alice Através do Espelho -- Cinema com Rapadura

Continuação do filme de 2010 ("Alice no País das Maravilhas"), teve alguma evolução e suaves aprimoramentos. Mas não no aspecto narrativo, que é bastante frágil. O longa se salva pelo esmero visual, apesar do exagero no CGI. Entenda melhor lendo a crítica ao clicar aqui.

Pais e Filhas -- Cinema com Rapadura

Filme nota 3! Tem um bom elenco, mas PAIS E FILHAS não se sustenta em razão da pieguice exagerada e da vontade notória de comover a qualquer custo. Confira clicando aqui.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

X-Men: Apocalipse -- Defeito de concepção, mas não de execução

É um alívio grande saber que a série X-Men não foi destruída com "X-Men: Apocalipse". Isso porque o filme não é o descalabro que se poderia esperar, aliás, nem é tão ruim quanto os trailers apontaram.

O prólogo magnífico indica um produto de qualidade, o que não se confirma. Com efeito, a cena inicial, que se passa no Egito Antigo e é mola propulsora do roteiro, é elaborada com um visual megalomaníaco (em sentido positivo) e sons com entonação grandiosa, o que acaba empolgando. Porém, o longa tem um claro defeito de concepção - mas não de execução.

Isto é, ele é bem conduzido dentro da proposta, sendo justamente ela o seu problema. Ao contrário de outros filmes de super-heróis, os X-Men sempre têm uma profundidade mais atrativa. Ocorre que este filme simplesmente abandonou o mote da "marca", que é a discriminação sofrida pelos mutantes, que, em última análise, simboliza os preconceitos que se pode vislumbrar em qualquer sociedade. Há um certo bullying entre os alunos do Xavier, mas é tão en passant que passa praticamente despercebido. É assim que a Fox fez um filme com diversos equívocos de roteiro, sem salvação para o momento das filmagens (daí o defeito de concepção e não de execução).

O enredo é básico, clichê e maniqueísta: o vilão Apocalipse, após anos adormecido, é acordado por seguidores e inicia recrutando capangas (os "Quatro Cavaleiros do Apocalipse") para seu plano maléfico extremamente original, dominar o mundo. Caberia aos X-Men enfrentá-lo e impedir que ele consiga obter êxito na empreitada. Original, não é? Não.

De início, percebe-se um roteiro inflado, vez que repleto de subtramas (e eventualmente até personagens) desnecessárias e pouco refletido (em especial no que se refere aos famosos furos de roteiro). A má construção das personagens é um defeito bastante grave, e, ainda pior, o plot desperdiça explicações que seriam relevantes e injeta frivolidades. Por exemplo, ao inserir um romance absolutamente descartável entre Charles (James McAvoy) e Moira (Rose Byrne). Qual a serventia do romance para a narrativa? A produção preferiu retomar esta personagem do pretérito em detrimento de exposições maiores das novas - aliás, as novas personagens sofrem uma abordagem demasiadamente superficial. Mesmo Scott Summers (Tye Sheridan, confortável no papel) e Jean Grey (Sophie Turner, que ainda não convenceu - até pelo tamanho do papel) são melhor vistos como interação de casal do que como mutantes autônomos, como se o importante fosse apenas a formação do casal - a descoberta dos poderes e sua reação até estão lá, mas de maneira oblíqua, insuficiente.

Nesse ínterim, três dos quatro "Cavaleiros do Apocalipse" são apresentados e expostos de maneira lamentavelmente superficial. Os capangas do vilão são: Anjo, Tempestade (Ororo), Psylocke e Magneto (Erik). O Anjo, bem interpretado por Ben Hardy, não chega a ser verticalizado como deveria, pois a preocupação foi apenas retratá-lo como um bad boy, o que não é muito difícil (alguns minutos bastaram). O perfil traçado é diametralmente oposto ao Anjo da versão de "X-Men 3: O Confronto Final", todavia, em comum, aparecem pouco e sem densidade. Por sua vez, a Tempestade (Ororo), vivida pela promissora (no papel) Alexandra Shipp, é tão discreta que se torna irrelevante e dispensável - e o mesmo vale para Psylocke (Olivia Munn). Ambas são turistas na narrativa. Contudo, as personagens antigas seguem a mesma trilha pretérita: a Jennifer Lawrence Mística aparece mais do que deveria, assumindo um protagonismo exacerbado e dissonante; o Professor Charles Xavier evoluiu bastante em relação aos longas anteriores, se aproximando do famoso Professor X conhecido por todos; e Magneto é aquele mutante poderoso e importante que não tem como não assumir posição de destaque (até para ser fiel à nona arte). O Charles de James McAvoy começa a dar sinais do mentor sábio dos quadrinhos, assumindo a posição que teve (enquanto personagem) nos três primeiros filmes. A Jennifer Lawrence Mística de Jennifer Lawrence destoa dos demais por assumir, como dito, um protagonismo indevido: de um lado, não aceita a idolatria alimentado por mutantes mais novos (a partir do evento do final de "X-Men: Dias de um Futuro Esquecido", em que ela se torna famosa), de outro, assume - a contragosto - a posição de liderança sem olvidar sua paixão platônica por Erik. Os conflitos de Mística são rocambolescos e tediosos, mantidos em frente única quando se interessa por Erik e no paradoxo de ser o norte dos demais mutantes. A incoerência não é única, pois o discurso "mutant and proud" fica apenas na teoria, afinal, a mutante aparece muito mais como Jennifer Lawrence uma humana comum do que como a mutante azul que, originalmente, tem sim orgulho da sua aparência. E há um erro em relação à história original, pois a Jennifer Lawrence Mística da sequência nova é boazinha demais. Resume-se a personagem da seguinte forma: diz que tem orgulho, mas quase não aparece da forma natural azul (porque, infelizmente, Jennifer Lawrence é maior que a Mística); é líder e tem fãs, mas não admite tal posição; é apaixonada por Erik, mas não chega a ser sua comparsa (como na trilogia original) - aliás, seu perfil é este, mas a trilogia nova teima em colocá-la do "lado do bem". O Magneto do costumeiramente razoável Michael Fassbender é relevante porque sempre foi assim no material original (HQs), desta vez, ele tenta levar uma vida normal e anônima na Polônia, mas acaba não conseguindo, o que o leva a ser um dos "4 Cavaleiros do Apocalipse". Trata-se da única personagem cuja motivação é crível (enquanto capanga do vilão principal), mas seu desfecho é deploravelmente inverossímil.

O vilão principal é Apocalipse, que se apresenta como mutante com poderes praticamente ilimitados. O geralmente bom Oscar Issac até tenta, mas não salva a personagem: o vilão tem um perfil bastante clichê e não assusta, tornando-se uma decepção - exceto por seus poderes quase ilimitados. Se o seu figurino é aceitável, a maquiagem elaborada foi de péssima qualidade, quiçá em um nível tão indecente que a Fox deveria se retratar.

De todo o exposto não é equivocado concluir que o filme é recheado de furos de roteiro. Com tantas personagens, alguns mutantes de relevo acabam sendo ofuscados e aparecem quase que apenas em razão do seu poder - é o caso de Noturno (Kodi Smit-McPhee), que tem destaque apenas ao usar seu poder. Outras falhas possíveis de serem citadas foram o conveniente aparecimento repentino de Destruidor (Lucas Till), a inexplicável cegueira de Charles em relação ao poderosíssimo Apocalipse ao usar o Cérebro (vê Moira, mas não vê o vilão) e a precisão de Stryker (Josh Helman) ao aparecer no local e hora proveitosos para si. Aliás, a narrativa se passa uma década após os acontecimentos do anterior, mas nenhuma personagem conhecida envelheceu. Talvez a piada de que o terceiro filme seja sempre o pior consista em uma metalinguagem sincera...

Mas nem tudo neste terceiro filme da nova trilogia é ruim, ao revés, existem bons momentos. Por exemplo, a cena de Mercúrio/Peter é novamente genial: segue a vibe da do longa anterior, numa versão estendida, exatamente nos mesmos moldes (é quase tão engraçada quanto, contudo, perde em originalidade). Evan Peters é um dos mais confortáveis do elenco, nasceu para o encantador papel. A direção de Bryan Singer é competente do começo até a cena anterior à da batalha final (e isso não é spoiler pois é óbvio que haveria uma batalha final), vez que esta cena de encerramento é de uma pirotecnia exageradamente desagradável e até confusa. Singer se vê obrigado a atenuar a violência (exceto em uma cena, bem específica e pontual), mas comete poucos erros - até o 3D é de qualidade, apesar de comum pouca profundidade de campo. Percebe-se que o problema do longa não foi na direção (execução), mas sim no roteiro (concepção).

Não é precipitado afirmar que "X-Men: Apocalipse" provavelmente agradará a maioria do público porque tem boas cenas de ação e luta, bons momentos, piadas levemente divertidas e poucos erros grosseiros. Aliás, é provavelmente o vilão que decepcionará. Não obstante, há fôlego suficiente para uma (extremamente provável) continuação. Verdade seja dita, se não é o melhor dos X-Men, também não tira de "Wolverine: Imortal" o troféu de pior filme da saga. Da próxima vez, que não errem na ideação da película.

Angry Birds: O Filme -- Intermediário razoável

É preciso admitir que nem todas as animações necessariamente têm viés intelectual para serem boas - embora este seja o ideal. O conteúdo inteligente de "Divertida Mente" e "Zootopia" não permite que "Angry Birds: O Filme" chegue a tal nível de excelência, mas o filme baseado no game para smartphones é uma grata surpresa. Não é excelente, mas é um filme bom e bem divertido.

O prólogo surpreende ao apresentar ao espectador uma misteriosa cena de ação com o protagonista Red, e há coerência posteriormente, pois, se não há tanta reflexão no longa, há bastante ação em um 3D obrado com esmero. Até existem alguns temas complexos tratados de forma leve - tais como fobia social, bullying e controle da raiva (este, bem mais verticalizado) -, mas era possível ir além.

Isso não significa, porém, que o roteiro é raso. Na verdade, a redação do roteiro não era tarefa fácil: era preciso preservar a identidade dos pássaros em relação ao jogo original, criar uma narrativa crível e também coerente com o jogo, e, evidentemente, divertir. Aos poucos, o filme assume a forma do jogo. Pode-se afirmar que tais objetivos primários foram alcançados, inclusive com alguma folga, como ao criar neologismos (Porcópolis, chocaversário etc.).

O ponto alto do filme é sua eclética trilha sonora, empolgante e sensacional ao incluir bastante rock (Scorpions nunca ingressaram num filme de maneira tão orgânica), o country de Blake Shelton e a pop "I will survive" de Demi Lovato, por exemplo. Tudo isso contribui para a montagem acelerada e a direção competente de Clay Kaytis e Fergal Reilly - destaque para os planos longos de 360 graus, sem contar o bom 3D.

A maior virtude do plot é ser mais divertido do que engraçado, até porque se debruça mais na ação do que na comédia. Por outro lado, exceto pelo protagonista, a construção das personagens é rasa. Red tem seu perfil psicológico bem delineado, tornando-se o mais compreendido do trio principal. Chuck é engraçado por ser rápido, Bomba enseja risos por seu problema biológico. Mas é apenas de Red que as informações são dadas ao espectador. Isto é, a preocupação foi traçar os contornos deste e diferenciá-lo dos demais, apenas. Terêncio, outro pássaro de destaque, é a comprovação que, para ser engraçado, não é preciso ter falas. Matilda também aparece bastante, contudo, é mais opaca. O último pássaro importante é o Mega Águia, personagem clichê - e dizer mais do que isso significaria spoiler. Ainda sobre as personagens, a dublagem brasileira é excelente, em especial graças ao trabalho de Marcelo Adnet como Red e de Fábio Porchat como Chuck (os dois couberam perfeitamente nos papéis).

É do equivocado senso comum a ideia segundo a qual o público-alvo das animações seja o infantil. No caso específico de "Angry Birds", há diversos símbolos voltados ao público adulto - por exemplo, uma escultura remetendo à poliafetividade, a simpatia de Chuck em relação à nudez dos porcos e a referência a "50 Tons de Cinza" e "O Iluminado". Isso significa que a chance de tudo isso não passar despercebido por uma criança talvez não compense o ingresso.

Não obstante, o filme é aprazível em todos os seus momentos, sendo um exemplar intermediário razoável entre as animações ruins (como "Norm e os Invencíveis" - leia a crítica clicando aqui) e as ótimas (como "Zootopia" - leia a crítica clicando aqui).